Entre luminosidade e opacidade: uma experiência itinerante de rua, cinema e cidade.

Entre luminosidade e opacidade:                                                                                  uma experiência itinerante de rua, cinema e cidade.

por Gabriel Schvarsberg

 

A luminosidade da sala se reduz. Enquanto passam os trailers nos acomodamos aos poucos na poltrona. Alguns minutos depois as luzes se apagam completamente e o filme começa. A tela torna-se então o foco absoluto de luminosidade para nossos olhos.

Este ritual, tão naturalizado para os frequentadores de salas de cinema, apesar de aparentemente mecanizado, tem uma função fundamental para a experiência da recepção cinematográfica. É ele que promove a ambientação do espectador para o filme, possibilitando, pela relação entre espaço e luminosidade construída na sala de projeção, a instauração de uma ambiência propícia à experiência estética do cinema. Com a ajuda desse ritual, a materialidade do espaço perde completamente sua importância, interferindo quase nada em nossa sensorialidade, o que aliado a um bom filme, pode propiciar uma experiência de imersão profunda que, em alguns casos, poderia ser descrita como um descolamento do espaço.

O que a mostra Rua Cinema Nosso propõe não é, evidentemente, a mesma experiência, mas uma outra experiência de cinema a ser explorada coletivamente no espaço público, onde a materialidade do espaço não deixará de se fazer presente, e onde será a força própria do cinema que poderá superpor a esse espaço uma outra ambiência, que não apaga, mas que se soma às luzes, sons e movimentos do espaço urbano – não sem ruídos e atravessamentos mútuos – risco esse assumido e, por que não, desejado. Propõe-se assim, uma experiência de cinema, mas também uma experiência de cidade, uma experiência urbana. Reside aí, na relação imbricada entre essas duas experiências, uma potencialidade muito forte para a exploração de novos continentes subjetivos, sobretudo em se tratando de uma cidade como Brasília, cujo traçado urbano de matriz funcionalista nega a configuração tradicional da rua e da praça constituídas por volumes que desenham os limites da vida pública e a alimentam. Aqui a escala humana se perde na falta de limites físicos e se desintegra na velocidade automotiva, características essas que se por um lado favorecem uma atomização dos indivíduos também desafiam continuamente os habitantes da cidade a descobrirem novas formas de sociabilidade em seus espaços abertos e públicos.

Neste contexto peculiar, a proposta de uma experiência urbana de cinema, em Brasília, adquire um caráter extremamente provocador. Provocação, aliás, implícita no próprio nome da mostra: RUA + CINEMA + NOSSO.
Quando o título surge, lá do fundo da sala escura, protegida pelo anonimato da escuridão, uma voz qualquer poderia exclamar: Mas desde quando existe rua em Brasília?! Existe um cinema de Brasília?

Escapando à comodidade segura da sala escura e propondo a democratização do debate (sobre a existência ou não de cinema, rua ou esquina em Brasília], o próprio projeto responde à provocação que levanta, afirmando nas suas propostas curatorial e de configuração – enquanto acontecimento urbano e público – a existência cultural de um cinema e de uma rua, coletivamente construídos pelos habitantes dessa cidade; portanto, ruas e cinemas… nossos. A proposta, no entanto, não se contenta em oferecer um simples testemunho dessa existência, mas assume como objetivo fortalecer cada uma dessas construções culturais que, mesmo com algumas décadas de história, certamente ainda se encontram em processo de formação e enraizamento na jovem memória da cidade. O cinema pode ser um veículo potente para a construção dessa memória (e por que não dessa rua?), assim acredita o projeto, desde que seja possível aos habitantes da cidade acessá-lo. Mas como fazê-lo diante de um circuito fechado, caro, extremamente elitizado de salas de cinema, e que ainda por cima não tem interesse comercial na produção cinematográfica local? O modo escolhido é simplesmente levar o cinema para onde as pessoas estão, e como elas estão espalhadas no território, a mostra põe-se a caminhar, adquirindo uma natureza transumante, ou transurbante. Dessa forma, com uma tática de duplo-vínculo, o projeto fortalece tanto o cinema quanto a rua de Brasília.

Talvez seja possível falar de dois tempos, ou melhor, de duas temporalidades da mostra, que não estão no eixo das sucessões mas naquele das coexistências, e que parecem suscitar algumas experiências interessantes de rua, de cinema e de cidade. A primeira temporalidade é aquela de uma única sessão num espaço público de alguma das 12 Regiões que receberão a mostra. Predomina aqui a escala do lugar. É o tempo do acontecimento, que insere no espaço urbano ocupado por práticas ordinárias algo extraordinário, deslocando o comum daquele cotidiano para um outro “lugar” de possibilidades. O acontecimento faz da rua palco para o cinema de Brasília, divulgando-o e democratizando-o. E o cinema, por sua vez, age como um convite à partilha do espaço público entre estranhos, instaurando na duração efêmera do acontecimento uma experiência de rua singular que, por alguns momentos, coloca em suspensão o predomínio da pressa da circulação cruzada, pela proposta da permanência e do encontro.

Na tela, agora ao ar livre, surgirão outros estranhos, reais e ficcionais, como os que se juntaram a nós; esses outros, essas vidas diferentes da minha, cujas trajetórias diárias são responsáveis por infiltrar nas vias da cidade planejada essa rua povoada de um cotidiano fora-do-script. Agora o cinema enquanto palco da rua.

A outra temporalidade, que também pode ser experimentada, é a da própria trajetória da mostra que, ao longo de três meses, percorrerá 12 regiões no DF, com seus espaços característicos e seus tempos diferenciados. Aqui alcançamos a dimensão do território, múltiplo e polifônico, como o conjunto dos filmes selecionados na mostra. É o tempo da itinerância, onde várias ruas poderão ser visitadas, sejam elas as dos espaços de exibição ou aquelas presentes nos filmes apresentados que, vale lembrar, não se repetem. [Circulação do cinema, cinema circuladô, gran circular]. Com isso, Rua Cinema Nosso não apenas propõe a democratização do cinema, como também a democratização da cidade, incitando a um nomadismo territorial, uma mistura humana, tão necessários como dificultosos na Brasília das grandes distâncias espaciais e sociais.

As duas temporalidades podem ser conjugadas e experimentadas na medida do desejo e das possibilidades de cada um, mas talvez seja esse tempo da itinerância (que contém em si o tempo do acontecimento), aquilo que a mostra nos oferece de mais precioso: o convite a uma expedição coletiva pelos espaços e tempos de Brasília nos filmes e junto aos filmes, acompanhando o movimento da mostra e estimulando a descoberta de outras Brasílias diferentes daquela habitada por cada um de nós.

Cai a noite e a cidade se ilumina. Os movimentos e a confusão de sons do trânsito, do comércio, dos passantes, ganham os contornos típicos do início de noite. Na praça, um conjunto de pessoas se aglomera, atentos à luz de uma projeção. Quando o filme começa, demora ainda a enfeitiçar o espectador. A luz, os sons e o movimento do filme projetado disputam com as luzes, sons e movimentos da cidade a atenção da pequena multidão.

A mistura ruidosa de filme e cidade faz surgir um espaço-tempo liminar. Uma ambiência rara se instaura e a cidade real e a cidade filmada – ambas Brasília(s) – se confundem. O espaço atual e material do lugar, ainda que inevitavelmente presente, passa a habitar a atenção periférica, torna-se secundário diante do espaço virtual do cinema, que nos conta estórias nessa mesma cidade. Seria possível distinguir uma cidade real e uma cidade ficcional? Talvez esta tarefa seja menos importante do que perceber as passagens e processos aí engendrados. Pelo cinema a vida torna-se mítica, e a própria cidade, banal, cotidiana, torna-se também mito, quando vivenciada em outro tempo. No entanto, não há descolamento radical aqui, como aquele promovido pela sala de cinema. Aqui só poderá haver deslocamentos, ainda que em intensidades variadas. Desloca-se assim o tempo monetarizado ou “perdido” das viagens diárias casa-trabalho, o tempo da memória oficial da cidade-patrimônio histórico, o tempo da discursividade midiática e das narrativas jornalísticas favoráveis aos processos hegemônicos de acumulação e financeirização da terra, na direção de tempos outros. Tempos de histórias não-oficiais, escritas “a contrapelo”, dos movimentos de luta e resistência que aqui irromperam; tempos de manifestações artísticas, de festas sagradas e profanas, de trajetórias de vida; tempos de estórias de amor e loucura, de universos oníricos e surrealistas que apenas o encontro das formas modernas com o Planalto Central do Brasil poderia originar.

O geógrafo Milton Santos, desvelador brilhante dos processos de urbanização ao sul do equador, e cujo pensamento crítico foi inclusive tema de documentário dirigido por Silvio Tendler (e por sinal ovacionado quando apresentado no Festival de Cinema de Brasília), formulou entre seus inúmeros conceitos uma interessante abordagem dos espaços da cidade a partir do tema da luminosidade. Assim como o planeta visto do espaço à noite pode ser compreendido por suas zonas iluminadas e suas zonas escuras, as cidades teriam também seus espaços luminosos e seus espaços opacos. Os primeiros são espaços de racionalidade, construídos para dar vazão à aceleração dos fluxos do progresso e do dinheiro. São minoritários em extensão, mas subordinam à sua lógica rígida todos os outros, espaços opacos, que se desenvolvem às margens, ou nas dobras sombreadas do primeiro. Nestes espaços “outros” opera a lógica da flexibilidade, da inventividade, da “viração” típicas do cotidiano de cidades repletas de contradições. Se em Brasília já foi fácil um dia distinguir esses dois tipos de espaço a partir de sua cisão original (Plano Piloto x cidades-satélite), o boom desenvolvimentista dos últimos anos, que converteu produção imobiliária em política econômica, tornou essa leitura um tanto mais difícil, pois a luminosidade avança a passos largos sobre os antigos territórios opacos, não sem que os espaços luminosos sejam eles também infiltrados de opacidades.

O cinema, se pensado enquanto equipamento cultural inserido em contextos urbanos, carrega consigo contradição similar. Se em tempos passados ainda era possível ter acesso a cinemas de rua, integrados à cidade como uma casa, uma escola ou um boteco, em zonas centrais de fácil acesso pedestre, hoje ele não ocorre senão encapsulado em grandes shopping centers, enclaves urbanos de consumo, importados do modelo suburbano de cidade estadunidense; espaços luminosos, rígidos e elitizados que contribuem enormemente para matar a experiência de rua, uma experiência que, por esses e outros processos muito conhecidos (condominização, carrodependência, culturalização do medo), adquire hoje feições cada vez mais opacas. No entanto, é interessante notar que, paradoxalmente, o cinema tem sido historicamente lócus privilegiado para falar da opacidade da cidade, deslocando pontos de vista, mostrando beleza, criatividade e força onde só se via invisibilidade, pobreza ou marginalidade. Muitos filmes dessa mostra certamente falarão disso: acontecimentos que ocorreram e continuam a ocorrer à sombra das luzes do progresso que oficialmente construíram Brasília.

Em meio à ofuscante luminosidade dos templos de consumo onde se inserem, as salas de cinema precisam mesmo criar artificialmente uma escuridão forçada, que descole o espectador daquele espaço luminoso para que o cinema possa falar de outras qualidades de luz e de sombra. No caso da mostra Rua Cinema Nosso, a relação entre espaço e luminosidade é outra. Não se recorrerá a minuciosos artifícios técnicos para criar um ambiente hermético, mas se permitirá que a luz própria do cinema costure relações variadas com a luminosidade e a opacidade de cada espaço onde a mostra estacionará.

Não há dúvida de que será mais difícil, ruidosa, e possivelmente conflituosa, essa experiência, mas por todas as possibilidades que ela carrega consigo parece valer a pena assumir esse risco; coletivamente; publicamente, e na rua. O que a mostra propõe talvez seja também isso: façamos coletivamente Rua em Brasília, também pelo cinema e com o cinema.

Eis que agora, por meio da opacidade de nosso cinema na rua, as luzes da cidade rígida começam a se esmaecer. As fortes e tradicionais fontes de luz, a partir das quais nossas percepções costumam se iluminar, justo aquelas que nos indicam os caminhos a seguir, onde parar, até onde ir, começam a falhar. Construímos então, pouco a pouco, um olhar para o escuro, um escuro que se mostra densamente habitado e de onde emergem de tempos em tempos, em intervalos imprecisos, fagulhas de luzes menores, centelhas de brasílias possíveis, desejadas e urgentemente necessárias.

Gabriel Schvarsberg: Arquiteto e Urbanista, Mestre em Processos Urbanos Contemporâneos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Editor da revista Redobra.

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