Imagens e imaginários de Brasilia

Imagens e imaginários de Brasilia

por Tania Montoro

1. ITINERÁRIOS DO CINEMA NACIONAL

Escrevo este texto mergulhada na quadragésima terceira edição do Festival de Cinema Brasileiro de Brasília. Patrimônio imaterial do Distrito Federal, orgulho e resistência do cinema nacional, este evento edifica o pilar da cultura cinematográfica da capital nacional tanto por sua tradição (sempre com filmes inéditos) como por abrigar veteranos diretores e novos talentos funcionando ao longo de governos e “desgovernos” como o” parlamento do cinema brasileiro” ou ainda, como querem alguns,” a vitrine do cinema nacional”.

A UNESCO define como patrimônio imaterial “as práticas , representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados e que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio.” (Convenção UNESCO,2003).

O patrimônio imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente é recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e a história; gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.

Acompanho este festival há muitas décadas, desde menina criada na 107 sul, ao lado do lendário Cine Brasília sempre estive no mês de novembro (agora em setembro) assistindo e discutindo os filmes brasileiros da safra, o próprio festival e nas últimas décadas o abandono dos espaços arquitetônicos da cidade configurado no descaso com o próprio cinema – cine Brasília, que por mais de quatro décadas abriga o festival.

Poucas cidades têm interação tão fecunda com o cinema brasileiro como Brasília, construída e fundada como capital do país em paralelo com a explosão do movimento do Cinema Novo que invadiu nossas salas e reconfigurou a imagem dos brasileiros e da paisagem nacional.

O cinema chegou a Brasília junto com os candangos, o concreto, as máquinas, os ferros e equipamentos. Desde a primeira visita de Juscelino Kubitschek ao Planalto Central, o cinema se fez presente. Brasília foi filmada, acompanhada, vista…, pela lente de cinegrafistas, fotógrafos e repórteres. Em 1956 a fundação da cidade foi registrada pelas câmeras de Jean Mazon, Carlos Niemayer; Isac Rosemberg e muitos cinegrafistas e anônimos que filmaram a cidade sendo erguida no Planalto Central.

Em seus primeiros anos, a cidade conquistou definitivamente sua identidade com o cinema: primeiro, com a implantação de um curso de cinema, também inédito no país, com entusiasmo de professores e cineastas que habitam a memória histórica do cinema como Paulo Emilio de Salles Gomes, Nelson Pereira dos Santos, Eugene Feldman, Jean Claude Bernadet e depois, com a realização anual do Festival de Cinema Brasileiro de Brasília. Naqueles idos, ainda analógico, o festival era o único lugar que podíamos contemplar retratos do Brasil sempre ocultado pela história oficial e cinzenta que aprendíamos nos livros da escola. Esperava-se o festival para assistir, às vezes sem entender, as polemicas travadas, as moções contra os censores, os filmes de protestos e a cidade como espaço síntese das relações assimétricas que matizam o jogo de poder que envolve a realidade, constrói ficções e consagra cruzamentos entre memória e prospecção; tradição e inovação.

Pela insistência em querer colocar Brasília dentro de um tabuleiro dicotômico e impreciso que não dá conta de seu futurismo: ou se conta a historia oficial dos governantes pioneiros ou dos trabalhadores, candangos e migrantes que vieram construir esta cidade monumento. Reclama-se neste texto, a história nova feita pelos atores – protagonistas de um novo tempo, que não cabe nos cânones binários que em que se olvidam as singularidades das narrativas que formam várias camadas de sentidos e que ao admitirem várias leituras , vão contribuindo para tornar mais denso o campo de estudos sobre a construção de identidades e as formas de alteridade vivenciadas e imaginadas no imaginário dos brasileiros, dos anos 60, que fundaram Brasília – cidade IMAGINADA.

Para refletir sobre imagens e imaginários de Brasília dialogo com Georg Simmel (1979; 2010) que orientou suas reflexões para o estudo do cotidiano para ampliar o conceito de imaginário. Afirma o teórico que os estudos do imaginário devem ser ancorados em um pensamento complexo, flexível e pluralista, que incorpora a contradição e ambivalência. Este campo de estudos sobre imagens ordenam os modos de representação que constituem a relação simbólica do homem com o mundo.

O autor assinala que toda relação entre os homens faz nascer em um uma imagem do outro. Esta experiência constitui a base de um conhecimento recíproco situado em um dos pontos em que o ser e a representação tornam – se empiricamente sensível em uma misteriosa unidade.

Sublinha que a forma mais pura de coesão sociológica de um grupo se enraíza em uma espécie de “focus imaginário”.Desta forma o imaginário se constrói na mediação entre a realidade psíquica com sua réplica ideal. Isto demonstra que a representação e seu objeto se cruzam em uma mútua interpretação simbolizante.

Os significados de Brasília das mil imagens cotidianas que a desnudam e a convocam ancoram-se em um processo paradoxal e ambíguo que se desenrola entre o mesmo e o outro. Pensar Brasília como um projeto fundante do Estado e da Nação brasileira remete a labirintos de confluências e reciprocidades que, ao tempo que promove uma suspensão e um deslocamento do olhar, revela percursos que evidenciam questões candentes que ultrapassam impasses e pontuam alternativas capaz de fazer mediação entre as pontas que separam os abismos entre classes sociais e que abre espaço para entrever o transito entre o passado e futuro, entre paradoxos, injustiças e ambigüidades.

No poema Segredos de Papel (1978) Maria Coeli revela os segredos imaginários da cidade.

Em Brasília as pessoas guardam segredos

Guardamos segredo

Sabemos de tudo em primeira mão

Teia de arame cruzado

Hermetismo governamental

As pessoas fogem uma das outras

Escondem uma das outras segredos bestas,

Temos medo, entre nós nada é entrelaçado

Em Brasília tudo é papel

O papel dos palácios

Passo a noite e vejo palácios iluminados

Cheios de papel

Vou a um galpão de madeira.

Ver um filme 16 mm

Uns dois, um dois,

Uns dois, um dois…

São muitas as surpresas que a cidade revela se o teu olho não for cúmplice e aliado do muito que cada oculta surpresa, encerra.

Se o teu olho resistir a essa mania imprópria de ver sob as lentes aquilo que você esperava ver, verá que Brasília é a semente de um desejo que o país fosse outro e a nação redimida estivesse resgatada.

Com um olhar mais intimista da cidade vemos imagens de muita dor e agonia da fúria dos enjeitados. E da mãe prostituta que se degrada para alimentar o filho assassino ou a redentora dos filhos absolvidos na legião dos poetas e os transformadores de coisas – os cineastas, os fotógrafos , os cinegrafistas, os músicos, os montadores, os professores e escritores. Como assinala Dobal :

Em Brasília há sempre uma sensação de que a vida esta ocorrendo em algum outro lugar. Talvez por isso, aqui estamos perto do que parece distante. Este território isento de tradição e sem saída para o mar, tem duas faces, cada qual enigmática a seu modo (2003:139).

Há muito que os segredos de Brasília têm sido desvendados. Você se move e não sai do lugar. Atravessa quadras com a câmera e está no mesmo horizonte. O sol atravessa sua pele. Dando aulas de cinema atravessam-se gerações, que submersas em contradições realizam outras experiências e olhares sobre a cidade.

Em um balanço dos cinqüenta anos de cinematografia candanga – marca e logo marca de meio século de invenção da cidade pelo sonho de homens e mulheres, vislumbra-se a possibilidade criativa de observar o entroncamento de zonas de fronteiras que se assenta na relação do cinema com a cidade e da arquitetura com o espaço fílmico. Captando e vasculhando o imaginário de Brasília pela lente dos filmes dos cineastas candangos de diversas gerações e tribos;cidadãos brasilienses, filhos dos candangos que nasceram filmando e assistindo filmes na cidade encontram-se um conjunto de fragmentos audiovisuais que conformam sentidos de pertencimento dos habitantes destas savanas cerratenses do Brasil Central. .Conforme postula Prysthon:

A construção imaginária da cidade vem dentro de um grande cenário de imagens e de linguagens , uma esfera intercambiante de fronteiras de sentidos. A cidade é um sistema de interação comunicativa entre os atores sociais, os responsáveis pela produção de uma cultura de simbologias urbanas. Estudá-la sob o ponto de vistas comunicativo é descrever e interpretar a historia e os cenários urbanos e periféricos, é pensar o papel da cidade através da leitura do espaço e suas conexões midiáticas como parte integrante do sistema comunicacional. (2006:264)

Há mais de uma década o cinema de Brasília tem encontro marcado no teatro nacional e no cine Brasília com a Mostra Brasília, evento integrante da programação do Festival de Cinema Brasileiro de Brasília, que exibe para uma platéia candanga e regional a produção audiovisual da cidade contando com prêmios da Câmera Legislativa do Distrito Federal, do jornal, da ABCV / DF, do Cine memória capitaneado pelo professor/ cineasta Wladimir Carvalho que é o grande mestre e patrono de uma geração que sempre lutou pelo cinema brasiliense.

Sem espaço nobre na grande mídia – a Mostra Brasília – se institui como um lócus de pertencimento e envolvimento de novos e experientes realizadores consagrando-se como espaço de interação simbólica e diálogos transversais que revelam imagens e imaginários de Brasília nas obras audiovisuais de documentários e ficções.

Como o quarto maior pólo de produção e consumo de cinema no país, Brasília abriga em seu itinerário cultural seu roteiro cultural nas últimas décadas, uma profusão de Festivais e Mostras de Cinema. Para além do Festival de Cinema Brasileiro acolhe a Mostra de Cinema e Direitos Humanos da America Latina; Mostra de cinema de Veneza , Mostras de cinema de excelentes curadorias realizadas pelo dinâmico CCBB e, até dois anos atrás abrigou o Festival Internacional de Cinema – FIC que sempre trouxe o mais contemporâneo da cinematografia mundial nos generosos espaços das aconchegantes salas de cinema, hoje cinzas, da Academia de Tênis de Brasília.

A identidade cinematográfica da capital brasileira se constrói, portanto, sob a égide do nacional e internacional – do regional e do local. Em Brasília é esta multiplicidade de diversidades que provoca singularidades e complementaridades para uma agrupação de pertencimento. Ao optar por trabalhar com os conceitos de identidade e representação na análise do imaginário cultural estamos examinando a relação entre cultura e significados produzidos por sujeitos que demarcam lugares discursivos e imagéticos que deslocam dos sistemas de representação para as identidades produzidas por processos imaginários.

Para Zunzunegui (1999:45) a imagem é um composto de comunicação visual, no qual se materializa um fragmento do universo perceptivo e que apresenta a característica de prolongar a sua existência ao longo do tempo. Para o autor a imagem é fruto da imaginação. Ela se vale dos imaginários existentes sobre determinado tema para ser construída e reconfigurada.

Imagens e imaginários não são estáticos, imutáveis e universais. Pelo contrário, são social e temporariamente especificados e constantemente expostos a variações entre grupos e através dos tempos, assim como ocorre com a cultura, estando em constante transformação.

A imagem criada como parte do ato de pensar é, por outro lado, balizada nas informações obtidas pelas experiências anteriores dos indivíduos. Ela contem significados que são universais , pertencentes a um inconsciente coletivo baseado em arquétipos. Neste processo de significações as imagens criadas se remetem a estruturas do inconsciente, do imaginário do individuo. Assim, a imagem, ao mesmo tempo, é produto e produtora do imaginário, pois ao mesmo tempo em que se vale dos elementos que povoam o inconsciente para ser criada, ela se alimenta do imaginário com novas experiências, correlações e repertórios discursivos.

2. Imagens e Imaginários na tela do cinema

 Filmada por Joaquim Pedro de Andrade em 1967- um dos maiores expoentes do cinema novo – o filme “Brasília – Contradições de uma cidade nova” reveste-se de imaginário fundante da nova capital dos brasileiros que alimenta-se das contradições do próprio país. Brasília – a cidade monumento; o feminino de Brasil congrega as contradições econômicas, sociais, políticas, religiosas, culturais, de arquitetura e de paisagismo da nação brasileira. E não poderia ser diferente. Para Junqueira ((2006:148)

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As cidades são palco desses processos que se desenrolam nos espaços públicos e privados. As metrópoles são o núcleo centralizador e difusor de mudanças culturais como a desterritorialização e flexibilização de identidades culturais , a interação entre tradição e modernidade, a pluralidade de práticas e táticas culturais de negociação entre classes dentro da cultura nacional , e entre o que é nacional e o que é estrangeiro no âmbito da cultura global.

Sistematizando os constructos que são categorias analíticas hipotéticas que possuem valor heurístico ou interpretativo, mesmo que não pretendam descrever com exatidão qualquer realidade observável e que podem ser : a) modelos de comportamento baseados em normas e princípios explícitos; b) entidades hipotéticas ou processos cuja existência só pode ser deduzida de suas causas, conseqüências ou manifestações; e c) tipos ideais ou construídos que combinam variáveis selecionadas para dirigir a atenção para elementos comuns em situações concreta diversas ou fornecer um padrão heurístico para examinar as relações entre as variáveis selecionadas.

Valho-me para esta análise das estruturas recorrentes para assinalar itinerários que congregam imaginários da cidade elegendo uma série de filmes sobre a Brasília produzidos entre 1989 e 1993, período de tombamento da cidade como Patrimônio da Humanidade, título conferido pela UNESCO, ao conjunto arquitetônico da capital.

Estes filmes reunidos no projeto “Brasília: A última utopia” reúne seis episódios (6 filmes) sobre a cidade e seis diferentes declarações de amor a Brasília. Os cineastas da capital utópica – Wladimir Carvalho, Geraldo Moraes, Pedro Anísio, Pedro Jorge, Moacir Oliveira e Roberto Pires mergulham no imaginário da cidade para desvelar a sua paisagem natural; os seus mitos; a sua mestiçagem ; os seus gritos e agruras; os seus monumentos e especialmente o seu povo.

No filme dirigido pelo do cineasta e professor Geraldo Moraes intitulado A Capital dos Brasis as contradições e diversidades da capital são reveladas a partir dos contraditórios pontos de encontros da cidade como bares, cinemas, comércios, rodoviária, áreas de lazer e especialmente (fluxos comunicativos) pela profusão de sotaques que produzem uma sinfonia de “falares” que constrói-se e ressignifica este entroncamento lingüístico entre o nativo e o imigrante europeu; entre o urbano e o rural e entre o moderno e o arcaico. E isso gerou um modo de falar próprio congregando a coexistência de múltiplas linguagens – um modo de comunicar assentado na relação dos habitantes em suas experiências reais e cotidianas e com a construção imaginaria de Brasília produzida também pelas pantalhas da televisão e de outras mídias eletrônicas audiovisuais.

Em Paisagem Natural, o documentarista Wladimir Carvalho elege as singularidades do cerrado onde se localiza a seca capital no sertão do planalto central , para realizar um contraponto e um mergulho nas águas das três bacias hidrográficas que circundam a arquitetura em concreto dando um sopro de verde e anil na paisagem amarelada e exuberante que hospeda a cidade e colore o cerrado com instantes de poesia visual que risca o céu de Brasília imortalizado em prosa e verso.

Moacir de Oliveira em Suíte Brasília realiza um passeio pela arquitetura de capital ao som de “suíte Brasília” do compositor Renato Vasconcelos que se tornou uma espécie de sinfonia da cidade.

O cineasta Pedro Anísio recorre ao personagem Will Eisner, para sair dos quadrinhos e filmar o misticismo da capital rodeada por seitas, rituais, crenças e todo tipo de xamanismo. Os cineastas recorrem ao imaginário da cidade para recontar de forma alegórica a história do Brasil da colonização à construção da cidade (Pedro Jorge) da trajetória do trabalhador da construção civil ao retornar a cidade (Roberto Pires).

Ao eleger a contradição como elemento dinâmico e fundador do imaginário de Brasília tanto dos filmes dos tempos da sua fundação como nos contemporâneos da safra nova realizado nas últimas décadas – cineastas da geração Brasília; observa-se nos títulos que dão identidade as obras audiovisuais a conjunção de vastos territórios extremamente desiguais e assimétricos emoldurados por polifonias de rostos, raças, estilos arquitetônicos,ambientes e paisagens por vezes surpreendentes. Ressalta-se que a cidade compõe o imaginário das narrativas audiovisuais flagrantemente nos nomes das obras: “A invenção de Brasília” de Renato Barbieri; “Brasiconóscopio” de Mauro Giuntinni; “Brasili Apé “de RC. Ballerini; “Brasiliários” de Sérgio Bazi e Zuleika Porto; “W3 Sul” de Marcelo Emmanuel e Eliomar Araújo;” Brasília uma Sinfonia” Regina Rocha, “Braxilia” de Danyella Proença e tantos outras.

Para Morin o cinema

é a composição do mundo imaginário, lugar por excelência de manifestação dos desejos, sonhos e mitos do homem graças à convergência entre as características da imagem cinematográfica e determinadas estruturas mentais de base. Com toda a proximidade que o cinema tem com a realidade, a tendência do espectador não poderia ser outra, senão identificar –se. Assim, o cinema se faz discurso e configura visões de mundo e valores de classes sociais, de grupos, de épocas e de gerações.(1983:36)

O significado do nome “Brasília” depende do olhar e do sentimento de pertencimento que cada um tem com a cidade. O reconhecimento do valor patrimonial fundamentado no plano urbanístico de Lucio Costa concebido em quatro escalas estruturais: A monumental representada pelos longos eixos que cortam a cidade; a gregária – representada por todos os setores de convergência da população (igrejas, escolas, farmácias, comércios) ; a residencial – representada pelas superquadras sul e norte e a bucólica que permeia as outras três representadas por extensos gramados, áreas de lazer, parques e toda orla do lago Paranoá.

É neste cruzamento de cenários que o plano piloto oferece ao olhar e a lente dos realizadores a imagem da cidade que continua ser filmada nos pilotis dos blocos, na vastidão dos gramados, no entremeados dos eixos e tesourinhas que a cortam e recortam.

Num esforço de fugir de imagens clichês que povoam o imaginário urbano, assim como ir além das metáforas fáceis que se encontram esvaziadas de sentido observa-se que a composição de sentidos das variadas narrativas cinematográficas sobre a cidade nos filmes de realizadores candangos encontram-se quatro eixos de convergências temáticas : a) questão da violência urbana na cidade (faroeste caboclo/ batizado por Renato Russo que imortalizou a cidade nos seus versos e olhares;b) As diferenças e desigualdades sociais, culturais, econômicas e de gênero;c) Singularidades da arquitetura , paisagem e urbanismo; d) Política, formas de corrupção e abuso de autoridade; multiculturalismo e diversidade cultural e sexual. Nas narrativas ficcionais as formas de sedução, sexo e traição configuram-se com recorrência nos filmes de curta metragem produzidos pelos cineastas da capital.

No domínio dos filmes os quatro eixos convergem para uma cidade monumento que convive com toda sorte de violência urbana assaltos, seqüestros; homicídios, exploração sexual, formas de delinqüências e ação policial que dinamizam os cenários que protagonizam a relação dos habitantes com experiência de viver nesta urbe que mobiliza situações sensório – motoras; óticas e sonoras.

Brasília longe da sua amplidão, solidão, espaços generosos é de alguma forma humanizada nos filmes da geração Brasília – ao ser emoldurada por paisagens humanas que entrecruzam territórios físicos e simbólicos, eixos e paralelas que confinam, segregam e separam. Notabiliza-se a profusão de tipos que convivem na zona central da cidade no cruzamento da rodoviária com o plano piloto e as demais cidades satélites.

A configuração imagética de Brasília, consagra a virtude de cidade – monumento. Nos filmes A era JK de Francisco Cesar Filho de 1993 ou em O jardineiro do tempo de Mauro Giuntini e ainda em Tepê (1999) de José Eduardo Belmonte o monumento cidade é apresentada em branco e preto em dias de sol e noites chuvosas que acolhem diálogos permanentes de ateus e divindades que perambulam pelo imaginário da capital.

Personagens emprestam a Brasília – elementos que confeitam as identidades culturais seja no filme Athos de Sergio Moriconi em 1998, em que assistimos uma profusão artística impar da arte moderna em Brasília concretizada pelo artista plástico, emblema da cidade o prof. Athos Bulcão ou em Viva Cassiano de 2004 em que encontramos o poeta que crava em versos nos pontos de ônibus da cidade – os pontos de partida e circulação da poética urbana da capital e ainda, em Oficina Perdiz de Marcelo Diaz de 2006 que garante um olhar revelador da cena teatral da capital no improviso militante da oficina mecânica e teatro – Perdiz, reduto da arte de encenação e de revelação de atores da cidade. Em Teodoro Freire – O guardião do rito de Noga Ribeiro e Willian Alves a tradição recontada do folclore da capital é revivida e reeencenada concretizando o encontro entre tradição e memória oral e visual.

Ainda, nos filmes o Rap o canto da Ceilândia de Ardiley Queiroz de 2005 e em Léo 1313 e Feliz aniversário Urbana da cineasta Betyse de Paula, o melhor da alma imaginária da capital se corporifica esplendorosamente em personagens – funcionário público, do congresso nacional como também na tenaz Urbana que protagoniza a intimidade de viver na super capital Brasil e com ela compartilhar o poder; os eixos da cidade que tecem e entrecortam planos e miradas.

Os filmes abordam elementos relacionados ao imaginário coletivo da formação urbana e da constituição da sociedade brasiliense. As produções sobre Brasília apresentam narrativas que mesclam os imaginários criados e construídos ao longo da historia cultural da capital e que foram se consolidando auxiliados por estereótipos confrontados por imagens realistas do contexto atual compreendendo a dinâmica singular da cidade – capital. Aspectos que a tornam única e singular são pincelados nos filmes por meio da recorrência em registrar a diversidade étnica e cultural dos seus habitantes , da sua arquitetura, paisagismo e desenho urbano. Mas está na relação afetiva que se estabelece entre os lugares e seus moradores, transeuntes, personalidades e personagens, a construção do imaginário identitário da cidade.

3. Reconfigurar a memória na presença do cinema.

 Reviver a memória audiovisual da cidade como corpo do presente e dimensão totalizante do discurso adentra no local para refletir o global e sublinha o fluxo do tempo de forma pontual para atualizar o passado no presente, de maneira que se torna indiscernível uma distinção entre ambos. A partir da leitura da verticalização do espaço urbano na construção da narrativa cinematográfica aproxima-se a percepção do tempo em sua forma mais sensorial : a memória, comumente colocada em contraposição ao contemporâneo.

Passado e presente juntos com real e imaginário é para Deleuze (2007) a própria imagem- tempo pois provoca um circuito na qual a imagem atualiza a precedente e se atualizada na seguinte.

Nestas dobras de tempo atravessadas pelas pontas do presente a imagem – tempo aciona a nossa memória das grandes cidades no cinema como constituinte de um imaginário de presentificação dessa memória – mundo que atravessamos.

O cinema brasiliense reconstrói os prédios e recortes arquitetônicos, refaz percursos entre eixos e avenidas, recria interiores e exteriores oferecendo novos sentidos aos espaços da capital. . No cinema, a arquitetura se decompõe e recompõe o mundo de outra mirada. Com arquitetura cinematográfica a linguagem do cinema faz o elo da pós modernidade de Brasília ao destilar e destinar características afetivas a espaços fronteiriços e com trânsito contínuo de sujeitos. Pontos de intersecção entre passagens e convivências formas de sociabilidades e convívios direcionando a movimentação dos habitantes favorecendo múltiplas relações que o espectador percorre no espaço fílmico.

É a experiência comum, na qualidade de elemento fundador, que constitui o imaginário e o verdadeiro motor das historias humanas dos filmes candangos. Para compreender a ordenação desses espaços é preciso entender o posicionamento dos personagens nas narrativas fílmicas. Perceber os inúmeros elementos constitutivos dos espaços de um filme apresenta-se como um produtivo indicador de análise da relação imaginária da cidade com o cinema.

São nestes agenciamentos espaciais da cidade no cinema que se edifica a relação dos sujeitos com a cidade e do público com o filme. Assegura a cada filme, diferentes ângulos e perspectivas trabalhados em profundidade de campo, emendados na continuidade de planos combinados na ordem das seqüências. Sujeitos e personagens se fundem a novos e velhos lugares que modernizados pelas novas tecnologias audiovisuais demarcam novas territorialidades incorporando o doméstico no espaço público convertendo espaços coletivos em espaços privados.

O imaginário de Brasília na cinematografia contemporânea da capital potencializa sensações articuladas na pluralidade de dimensões espaciais e na multiplicidade de sujeitos que desvelam por meio das lentes do cinema, os modos de conviver e interagir dos candangos com o generosos espaços desta cidade monumento – Brasília ressignificada visualmente como cidade – paisagem.

As Brasílias visíveis do cinema brasileiro funcionam como um recurso de memória e da paradoxal relação entre o real e o mito. Ora, prevalece uma relação de proximidade absoluta com o real na qual assistimos a experiência sobreposta pela mediação do que está sendo representado: seja esta cidade ; ora a cidade apresenta-se como mero artifício de aproximação do real , indício de um referente nem sempre existente.

Pensar a imagem e o imaginário das cidades na cultura contemporânea envolve necessariamente a leitura das representações urbanas cinematográficas como partes fundamentais de um sistema comunicacional. Nosso intento foi contribuir neste debate destacando a multiplicidade de formas de representar Brasília entre o real e o virtual.

Tania Siqueira Montoro: PHD em comunicação audiovisual pela Universidade Autonoma de Barcelona com pós doutoramento em cinema e televisão pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora e Pesquisadora do curso de Audiovisual da UNB. Vice coordenadora da linha de pesquisa em imagem som do mestrado e doutorado em Com/unb. Realizadora de cinema e televisão desde 1980. Autora de livros e artigos sobre cinema e audiovisual. Participa de juris de festival de cinema no País e exterior.

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